segunda-feira, 18 de março de 2013

Tudo é um efeito colateral de se estar morrendo (uma análise de A Culpa é das Estrelas)


   Já vou logo avisando que essa análise é bem pessoal e pode conter spoilers. É baseada nas minhas interpretações, portanto não tomem nada que será dito aqui como verdade absoluta. Aliás, todos sabem que eu sou louca pelo John Green e por isso é um pouco difícil falar sobre ele sem fangirlismo, mas prometo que vou tentar.

   A Culpa É Das Estrelas (ACEDE) conta a história de dois jovens humanamente incríveis, a Hazel e o Augustus, que por acaso acontecem de ter câncer. Mas essa não é uma história sobre o câncer e sim sobre dois jovens inteligentes e legais que têm problemas como qualquer ser humano que existe/já existiu nesse universo. A Hazel, por exemplo, apesar de ser legal e tudo mais, tem um gosto terrível para programas de tv (ela assiste America’s Next Top Model e Top Chef obs: eu não posso falar nada porque teve uma época que eu era viciada em ANTM), é louca por um livro chamado Uma Aflição Imperial (por que esse livro não existe?) e infelizmente tem câncer na tireoide que mutaram para os pulmões. O Gus costumava jogar basquete e fazer lances livres cheios de existencialismo (como não amar, gente?) mas descobriu que na verdade odeia basquete. Ele teve osteossarcoma na perna e teve que amputá-la (o que é uma droga), ama uma banda chamada The Hectic Glow e metáforas, tanto que costuma colocar um cigarro na boca mas nunca acendê-lo (você coloca a coisa que o mata entre os dentes mas nunca deixa completar o serviço, uma metáfora para a vontade dele de poder controlar a morte). O Isaac, amigo deles, adora jogar videogame (principalmente o Counterinsurgence), teve uma espécie de câncer raro na visão que o deixou cego e teve o coração partido por uma garota chamada Monica.
   Jovens que tiveram suas vidas mudadas por doenças crônicas mas que não as deixaram defini-los. Sim, eles tinham uma doença. E enquanto eles podiam se afundar nos estereótipos que a sociedade cria para esse tipo de situação, como uma pessoa depressiva que se entrega a morte ou uma inspiração de vida que luta bravamente contra o câncer até o fim, eles vivem normalmente suas vidas porque é assim que as coisas são. Eles são humanos e acima de tudo são jovens. Entre as sessões de quimioterapia vão ter momentos que eles irão querer namorar, eles vão se sentir mal humorados às vezes e odiar quando as pessoas lhe olharem com pena. Nenhum ser humano é inabalável e forte o tempo todo. E as nossas fraquezas são justamente o que nos tornam belos. Tanto é que o Augustus, com a sua obsessão de ser um herói e morrer em prol de algo maior para ser lembrado, mal percebeu que já era um herói do jeitinho dele. Ele era um herói para os seus pais, era um herói para a Hazel. Todos nós podemos deixar a nossa marca no mundo entre aqueles que amamos. Nas histórias épicas, os heróis são definidos pela força que vão adquirindo com o tempo, contudo na realidade o próprio John disse que aprendeu com Esther Grace Earl (nerdfighter que inspirou o autor em algumas coisas) que: “A hero's journey is not from weakness to strength. The real hero's journey is from strength to weakness." (em tradução livre seria: A jornada de um herói não é da fraqueza para a força. A real jornada de um herói é da força para a fraqueza).


    O título do livro foi criado a partir de uma citação shakespeariana, na qual Cassius diz para Brutus: “The fault, dear Brutus, is not in our stars but in ourselves” (o que na tradução livre seria algo como: A culpa, caro Brutus, não está nas nossas estrelas e sim em nós mesmos). Ou seja, ele afirma que a culpa das coisas que acontecem conosco não é do destino e sim nossa. O que faz sentido se estivermos falando de Brutus e Cassius. Mas não faz quando falamos de milhares de pessoas boas que sofrem sem aparente motivo, que sofrem não porque elas fizeram algo ruim ou porque elas são más, mas porque por alguma causa obscura elas não tiveram sorte. O que nos leva a conclusão de que há, de fato, muita culpa nas estrelas, no destino e no acaso. Nós vivemos em um mundo que não é justo e é assim e pronto. Por isso o título do livro ser A Culpa é das Estrelas.


   A nossa jornada chamada vida, terá altos e baixos (será uma montanha-russa como diz o Augustus). Será alegre, sofrida, angustiante e severa, contudo ela não precisa ser opressivamente triste, apesar das circunstâncias. E ah, para constatar o quanto o John é foda perceberam como as comédias shakespearianas terminam em casamento enquanto suas tragédias terminam em morte? Pois é, e o livro do John Green termina simbolicamente com os dois!!!! ACEDE é puramente tocante; é uma afirmação de vida e juventude ao invés de algo sombrio e depressivo; é um livro que foge de clichês e preconcepções. É um dos meus livros favoritos, sem sombra de dúvidas. Para mim o John Green criou uma obra de arte tão profunda na forma de algo aparentemente tão simples. Se o Gus é o herói da Hazel, o John é o meu herói.
Esse é o John Green, everybody:

   Sei que a morte é algo difícil de ser enfrentado, ainda mais quando seu espectro aparece em uma idade tão precoce. Mas a questão para mim é o que constitui uma vida completa e bem vivida. Uma boa vida não precisa, e não é, necessariamente longa e afinal de contas a morte vem para todos. Tudo é temporário (o que é nossa vida se não uma visita por esse mundo? Como diz o belíssimo poema de Prufrock http://www.casadobruxo.com.br/poesia/t/tse01.htm) por isso precisamos dar o nosso melhor hoje enquanto podemos. No fim do livro, por exemplo, a Hazel descobre que esteve errada sobre a relação que ela imaginava das pessoas que ela ama com a morte. Ela não estava errada sobre ser uma granada (afinal, TODOS somos granadas) mas sim na forma que isso afeta suas relações. Todos morreremos e as pessoas que nos amam sofrerão, é inevitável, mas isso não quer dizer que seria melhor elas nem terem nos amado em primeiro lugar. Lembre-se que “a existência do brócolis não afeta de forma alguma o gosto do chocolate”.

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